Skate na Terra

Conheça o esporte que mistura sensações de surf, skate e snowboard em alta performance. Origem, pioneirismo brasileiro e cena atual.

Origem do esporte:

O Esporte foi criado no início da década de 90 pelos snowboarders americanos Patrick MacConnell da Califórnia e Jason Lee do Novo México, que sentiam falta de praticar o esporte na baixa temporada. Eles fundaram a MBS – MountainBoard Sports – em Colorado Springs, cidade no Estado do Colorado - EUA. O equipamento é composto por uma prancha com eixos de alta resistência, shapes diferenciados, presilhas para encaixar os pés e 4 pneus com câmaras de ar, permitindo a prática sob qualquer superfície: terra, grama, pedra, asfalto, areia dura etc. O mountainboard mistura sensações de surf, skate e snowboard em alta performance, e ganha adeptos no mundo todo por conta da sua versatilidade.

Pioneirismo no Brasil:

O esporte chegou ao Brasil em 1996 nas montanhas de Visconde de Mauá – RJ, através de Paulo Solon, que encomendou o primeiro mountainboard através de seu irmão, praticante de windsurf, que viajou ao Havaí. Paulo nasceu no Rio e começou cedo no surf, morava no Leblon e pegava onda no Arpoador e foi frequentador do clássico píer de Ipanema. Ao se mudar para as montanhas em meados da década de 70, sentiu falta de praticar esportes de prancha e viu no mountainboard a solução para seus problemas.

Fundou a Local Trip Mountainboards em 1997, e começou a fabricar os equipamentos para não ter que dividir seu único board e para curtir a experiência, simultaneamente, ao lado de seus filhos e amigos "O pessoal vinha aqui pro sítio e fazia fila pra andar". O que a princípio era diversão e treino começou a virar fonte de renda, Paulão fez cursos de laminação e desenvolveu shapes específicos para o esporte, compostos por madeira e diversas fibras: "O shape de mountainboard é diferente dos de skate, por exemplo. Os trucks são posicionados nas extremidades, quase no limite da borda. Os atletas exigem muito do equipamento por realizarem saltos que chegam, e até passam, dos 3 metros de altura. Por conta disso senti a necessidade de fabricar shapes resistentes e flexíveis que absorvem o impacto da aterrisagem e garantem propulsão na hora do salto". Outro detalhe que faz diferença é o fato dos shapes serem personalizados. Numa fábrica com escala industrial isso não é possível, mas na Local Trip os atletas passam suas especificações de peso, altura e nível de flexibilidade e o Paulão faz o equipamento específico para atender as necessidades de cada um, herança herdada do surf "se no surf é assim porque no mountainboard não pode ser?" indaga Paulão. O aprimoramento dos shapes e das outras peças que compõe o mountainboard veio junto com a evolução da equipe, os equipamentos são testados exaustivamente pelos atletas, as necessidades partem das pistas para a oficina, que fisicamente ocupam o mesmo terreno. Hoje em dia os shapes da Local Trip são desejo dos atletas nacionais e existe interesse crescente de atletas de fora do Brasil.

Paulo Henrique Costa Blanca

Fernando Gazzola durante um slide layback na pista de mountainboard da Swell Skate Camp, em Viamo (RS).

Em paralelo a evolução do equipemento estava à construção das pistas. Obstáculos começaram a ser feitos na enxada e posteriormente por trator, hoje em dia seu sítio é a referência do esporte no Brasil. O primeiro evento de nível nacional foi realizado no local em 2004, foi organizado por outro ícone do esporte no Brasil, o gaúcho Sérgio Marreta, e contou com representação de atletas provenientes de 5 Estados brasileiros. De lá pra cá, Paulo montou uma equipe formada principalmente por atletas da região de Visconde de Mauá, alguns do Rio de Janeiro capital e outros do interior de São Paulo.

A equipe Local Trip é a maior colecionadora de títulos no Brasil tendo como figura principal o filho mais novo de Paulo, Thiago Solon, hexacampeão brasileiro de Slopestyle e Big Air, que começou a praticar o esporte com 6 anos e hoje tem 21.

Um de seus atletas, Fernando Gazzola, o pioneiro da cidade do Rio de Janeiro que trouxe seu mountainboard da Inglaterra em 1998, foi para um intercâmbio no Colorado, EUA em 2003, onde fez cursos e deu aulas de snowboard durante todo o inverno. Após a alta temporada das estações de ski, o atleta foi fez contato e foi contratado pela MBS, fábrica referencia mundial no esporte que tem sede no mesmo Estado, o Colorado. Gazzola adquiriu experiência, participou de competições e demonstrações com a equipe americana. Ao regressar em 2004, passou seus conhecimentos com o que viu lá fora. Em 2005 foi criada a AMERJ – Associação de Mountainboard do Estado do Rio de Janeiro – que foi registrada oficialmente em 2011, com o intuito de realizar campeonatos, promover a evolução técnica dos praticantes, criar regras e incentivar a construção de pistas.

Hoje em dia seu sítio do Paulão tem um complexo de pistas com as 4 modalidades do esporte: Downhill, Boardercross, Slopestyle e Big Air, mas Paulão não se contenta com o que tem e a quantidade de obstáculos aumenta ano após ano: "Sempre tem novidades na pista, os próprios atletas sugerem obstáculos, novas linhas e me ajudam a cuidar da manutenção".

O local virou ponto turístico, aos finais de semana seu sítio recebe visitantes ávidos para conhecer e curtir a novidade. Diante dessa nova demanda que muitas vezes o tirada da função predileta de fabricação de shapes, Paulão treinou a própria equipe de atletas para dar aulas aos visitantes. Hoje em dia, Fernando Gazzola é o representante brasileiro da instituição máxima do esporte no mundo, a IMA – International Mountainboard Association. Sua função é classificar os eventos que acontecem no Brasil (regionais, nacionais e mundiais), além de prestar treinamento a instrutores e certificar que as regras de segurança são cumpridas nas pistas do Brasil. Após orientar e comprovar o comprimento das regras, o park recebe o selo de qualidade da IMA. 

Cenário brasileiro

As competições de nível nacional começaram em 2004 e são realizadas desde então. Em 2009 foi realizado o único campeonato sulamericano, na pista Caburé Mountain Park, em Barra do Ribeiro, Rio grande do Sul. A etapa reuniu o inglês tri-campeão mundial de freestyle Tom Kirkman, o maior atleta de todos os tempos do esporte, o havaiano Akoni Kama, atleta veterano do esporte e astro do filme da Disney "Jonnhy Kapahala Back on Boards" (que tem como tema central uma equipe de mountainboard), além do americano Kody Stewart, primeiro atleta a realizar o 1080°. A competição contou também com atletas vindos da Colômbia, Argentina, Chile e Guatemala, foi um evento histórico.

Cristiano Costa

Emilia Melo durante a 3 Etapa do Circuito Brasileiro de Mountainboard em Braslia, em julho.

Os principais polos de desenvolvimento do esporte no Brasil são os Estados do Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais, Goiás e Distrito Federal. Nestes locais já existem Associações regionais do esporte. Mas temos notado movimentações de atletas em outros polos como: Santa Catarina, Paraná, Espirito Santo, Bahia, Pernambuco, Ceará, Piauí, Sergipe e Amazonas. Está em fase final a criação de uma Federação Brasileira do esporte, a FBM, formada pelos diretores das associações Estaduais mais ativas e atletas veteranos, que organizam competições e fazem parte da comissão de juízes.

O ano de 2013 é emblemático para o esporte no Brasil, temos 6 etapas que fazem parte do Circuito Brasileiro de Mountainboard, um recorde aqui, que faz do Brasil o País com o maior número de eventos de nível nacional na atualidade. O nível dos atletas nacionais vem crescendo gradativamente e fica fácil vislumbrar um campeão mundial de terras tupiniquins, qualidade técnica para isso nós já conseguimos ver, o que falta são empresas engajadas em dar o suporte necessário para esta garotada viajar mundo a fora e representar o País.  

Em todo o Brasil, existem 18 locais para a prática do esporte em alta performance. Clique aqui e conheça-os

Vale lembrar que pode-se praticar o esporte em qualquer descida, seja qual for o terreno. Por motivos de segurança aconselha-se evitar locais com tráfego de veículos, é obrigatório o uso dos equipamentos de segurança: capacete, cotoveleiras, luvas, joelheiras e bundeiras, para o Big Air é necessário incluir o colete com proteção cervical.

Futuro do mountaiboard

O esporte está em crescimento no mundo inteiro com a criação de novas pistas, no leste europeu e na América do Sul nota-se um crescimento acima da média. A Inglaterra é o país com o maior número de pistas. Países com grande número de atletas: EUA (destaque para Utah, Colorado e Havaí), Polônia, Sérvia, Eslovênia, Hungria, Romênia, Russia, França, Alemanha, Itália, Japão, Austrália, Brasil, Argentina, Chile e Colômbia.

No Brasil, com a organização do esporte e a criação da FBM - Federação Brasileira de Mountainboard, espera-se conseguir mais apoio de empresas privadas e das entidades públicas com as leis de incentivo ao esporte municipais e federais. Uma grande conquista para o esporte seria a inclusão do mountainboard nos XGames. O nível técnico atual garante grandes espetáculos, com destaque para a manobra double backflip executada no Big Air pelo campeão mundial de 2012, o inglês Matt Brind. Na Europa o esporte já participa de grandes eventos que incluem outros esportes de ação como o motocross freestyle e bmx.

Mountainboard - Origem, Pioneirismo e Cenário